Mãe e o mercado de trabalho

Outro dia me deparei com um texto excelente do Brasil Post (link dele aqui) e vou dividí-lo com vocês, pois sei que muitas mães vão se identificar e vai ajudá-las de alguma forma.

Antes de ter o blog com a Kika, eu passei por um período em dúvida do que voltaria a fazer em relação a minha vida profissional.

Eu queria de TODA forma um trabalho que fosse flexível e eu pudesse estar o mais perto possível dos meus meninos, pois isso é minha prioridade.

Graças a Deus eu tenho como fazer essa escolha, mas sei que muitas mamães não podem ou simplesmente não querem abrir mão de uma carreira empresarial corrida e bem sucedida. Sem julgamentos, pois acho que cabe a nós escolhermos o que achamos melhor e nos deixa mais felizes.

De toda forma, quando pensei em voltar a trabalhar me questionei como seria. Existe sim um preconceito da mulher e principalmente depois que se torna mãe no mercado de trabalho.

Como foi com vocês? Voltaram facilmente? Que dificuldades enfrentaram?

Mandem pra gente!

Boa leitura!

Beijocas

Pregnant young woman at home take a digital tablet with blank screen on her face.

         Caro recrutador, não me pergunte se tenho filhos

Aconteceu comigo mais de uma vez. A entrevista de emprego corria muito bem, obrigada. Eu via nos olhos do recrutador um evidente encantamento com a minha pessoa, com meu currículo e a experiência profissional que eu descrevia quando, em um clima falsamente descontraído, surge a pergunta: “Você tem filhos? De que idade?”.

Será que esta é uma questão que cabe numa entrevista de emprego? Me parece pouco objetiva, além de antiprofissional, com pitadas de preconceito, machismo e um tanto quanto invasiva. É quase como perguntar a orientação sexual do candidato, o estado civil ou a posição política.

Jamais fizeram essa pergunta para o meu marido ou para qualquer amigo do sexo masculino na mesma situação (minto: ouvi falar de um caso, em São Paulo, mas vamos combinar que é algo raro). A pergunta é direcionada à mulher com muito mais frequência do que ao homem porque supõe-se que mãe falte (ou deva faltar) trabalho para levar filho doente ao médico. Pai, não. Supõe-se que mãe não possa viajar a trabalho porque não vai querer ficar longe do filho. Pai, sim. Supõe-se que mãe não possa fazer hora-extra por não ter com quem deixar o filho. E o pai? O pai deixa filho com a mãe, certo?!

A pergunta peca em assertividade porque não mira no cerne da questão: o que de fato o recrutador quer saber é se algo importante na sua vida vai perturbar o fluxo do seu trabalho com uma certa constância. Mas quantos potenciais limitadores poderiam atrapalhar a rotina corporativa de um(a) funcionário(a), além de filhos! E se a pessoa não tem filhos, mas faz mestrado ou tem um outro emprego no horário em que poderia precisar fazer horas-extras? E se tiver um marido ciumento ou pânico de viajar de avião? E se ela tem um cachorro ou uma mãe doente de quem precisa/queira cuidar?

Vamos pensar às avessas: e se a funcionária tem filhos pequenos, não pode fazer hora-extra, porém tem uma agilidade ímpar de raciocínio e consegue concluir trabalhos complexos em tempo recorde? E se ela tem filhos pequenos e justamente por isso queira viajar para dar uma escapadinha da rotina de vez em quando? E se ela tem filhos e tem uma estrutura com empregada, babá, avós presentes e pai que divide o cuidado em igualdade de deveres?

Ao recrutador cabe descrever com clareza o perfil da vaga, avaliar se o currículo, a experiência profissional e o perfil psicológico da funcionária se encaixam nela. Cabe à funcionária decidir se quer adaptar o seu estilo de vida ao posto.

Voltemos à fatídica pergunta: como respondê-la com profissionalismo?

a) “Não é da sua conta.”
b) “Tenho filho pequeno, e daí?”
c) “Sim…”, em voz baixa, sem graça, com a cara pálida e a boca seca de constrangimento.

Nenhuma das alternativas. A resposta a) seria deselegante e grosseira. A b) muito na defensiva. A c) legitima o preconceito, o machismo e a invasão de privacidade. Mas foi a resposta que me senti compelida a dar todas as vezes que a pergunta me foi feita, pra logo em seguida sair da sala de entrevistas arrasada, culpada por ser mãe e com a certeza de que não conquistaria o almejado posto – mesmo depois de me justificar detalhando toda a estrutura que tenho que me permite trabalhar em paz.

Depois de debater com algumas amigas que passaram pela mesma situação, concluímos que a forma mais objetiva e profissional de responder a essa opressora pergunta, de modo a ajudar o recrutador a “ajustá-la”, é por meio de outra pergunta:

“Você quer saber se eu tenho restrições de horários e disponibilidade para eventuais viagens?”

Posso estar sendo pessimista. Talvez o recrutador queira apenas me enquadrar no estereótipo de pessoa responsável, comprometida com o trabalho, humana e organizada – funções que a maternidade supostamente traz para a mulher. Ou, é possível, ele pode estar interessado em analisar, de acordo com a minha resposta, o espaço que eu dou para os filhos na minha vida. Mas, sendo bem realista, na maioria dos casos, os filhos são vistos pelas empresas (e colocados pelas próprias funcionárias-mães) como um “passivo” profissional, um ônus no currículo de uma mulher.

Candidatas a vagas devem ficar alertas, isso sim, ao que a fatídica pergunta pode revelar sobre a empresa:

a) não valoriza que seus funcionários tenham uma vida equilibrada no campo pessoal e profissional.
b) tem uma cultura ultrapassada, com um conceito limitado do que seja um “bom funcionário”: ele deve viver para o trabalho em detrimento de todas outras áreas de sua vida.
c) não tem planejamento, não respeita horários pré-estabelecidos de trabalho e precisa de profissionais prontos para atuar 24 horas por dia.
d) o RH da empresa não tem técnicas modernas de traçar o perfil do profissional por meio de testes e dinâmicas, se utilizando de modelos ineficientes.

Pensando bem, da próxima vez que esta pergunta surgir, é você quem deveria, de antemão, repensar seu interesse na vaga. Será que esta empresa tem o perfil que você está procurando?

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